quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

deixa o doce pra amanhã

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Quando você descobre que o buraco não some, muda de lugar.
Então que mude sempre, que mude agora.
Hoje é bem melhor que ontem. Só que pode ser bem melhor que amanhã, também. Mas você nunca lembra que amanhã ainda não existe?
Então, o que se tem?
História pra contar e hoje pra viver.
O meu entendimento de felicidade é só meu. E se é o seu também, vem aqui. Olha pra cima, passa o braço no meu ombro e vamo em frente.
Vai ser inevitável a lágrima escorrer por dentro. Mas é, também, inevitável que as coisas mudem quando você olha pra vida e sorri. Ela bate, e a gente sorri. A lágrima seca pra que venham outras. Mas a ruga de um sorriso fica lá, até depois do amanhã.
E fica dentro. Porque a gente fica por dentro da gente.
E pra você, o outro você. O você triste, que não se permite viver e não quer que mais ninguém viva. Pra você... bem pra você só posso desejar um doce, pra ver se tira esse amargo que sai da tua boca.
Um doce, meu amigo. E oferece esse doce aos teus, pra que ele fique depois que você passar.
"Feliz daquele" que deixa o doce quando hoje vira amanhã. E quando amanhã vira lembranças.
doces
lembranças.
um sorriso e um doce.

e um beijo que é gostoso.

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

O Chaplin das Crianças - L.F. Veríssimo

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Não faz muito tempo, passaram “Tempos Modernos” aqui, outra vez, e a gurizada foi ver e gostou.

Achou engraçado engraçado, não apenas engraçado, curioso.

Você e eu não temos mais condições de julgar um filme de Chaplin.

A obra de Chaplin faz parte do nosso patrimônio cultural e mental. A gente a reverencia mesmo sem ver. Gosta por obrigação.

Mas as crianças não tinham nenhum compromisso com Chaplin, mal sabiam de quem se tratava, e gostaram porque gostaram. E eu suspirei aliviado.

Uma vez, tínhamos visto juntos uma coleção de curtas metragens antigos — inclusive do Chaplin —, e a reação geral fora de profunda chateação. Minha também, só que eu no podia confessar. E saí da experiência com sombrias premonições. Acabara-se a inocência do mundo.

As pessoas se preocupam com o efeito da violência na sensibilidade das crianças, mas minha preocupação é um pouco diferente. Tenho medo que esta seja uma geração à prova de deslumbramento. Uma geração dessensibilizada não pela desumanidade que a técnica moderna transmite, mas pela própria técnica moderna. Certamente, não eram menos violentas do que os seriados de TV de hoje as comédiaspastelão de 50 anos atrás, quando pastelão era apenas uma das muitas coisas que as pessoas levavam na cara. Mas a novidade do cinema — a primeira arte elétrica, o primeiro divertimento industrial — prevenia contra a banalização da violência. Todos os saltos dados pela técnica do entretenimento e da informação desde então nos encontraram dispostos ao deslumbramento. Lembro-me que quando a televisão mostrou as primeiras tomadas da Lua, diretamente da nave que a circundava, ficamos, os adultos, de boca aberta, emocionados, na frente da TV até que uma das minhas filhas entrou na sala e perguntou quando aquilo ia acabar, que ela queria ver um desenho animado.

Sinto muito que meus filhos não terão mais nada com o que se emocionar no desenvolvimento da técnica de divertir, mas talvez seja melhor assim. A técnica não quer dizer mais nada para quem nasceu na era da televisão. A técnica já chegou a Marte e não tinha nada lá, grande coisa. Mas a simples astúcia do corpo de um comediante, a sabedoria de um gesto feito há 50 anos e mal preservado em celulóide, ainda é compreendida e ainda faz rir. Talvez o fim do deslumbramento com a técnica seja o começo da verdadeira inocência, depurada e receptiva, e muito mais bem informada do que a nossa.

A tentação da pieguice é grande, nesta hora em que fazemos elegia não só de um grande artista como da nossa inocência superada, a melhor maneira de evitá-la é elogiar aquilo que, em Chaplin, não pertence à nossa geração, mas a transcende. Quem, como eu, se criou numa época em que Chaplin já era mais uma legenda do que uma celebridade do cotidiano, herdou mesmo assim todas as conotações que cercavam o seu nome, desde o primeiro encanto com o cinema da geração que nos precedeu, até a solidariedade política com o homem internacional e perseguido. Mas o que transcende a nossa época e hoje encanta as crianças é o que importa em Chaplin. O Carlitos vagabundo que para duas gerações simbolizou a vítima de um mundo cruel, revisto com outros olhos, não se mostra tão vítima assim. Carlitos dava tanto quanto apanhava, e ficava com a mocinha mais vezes que a perdia. A máquina não derrotou Carlitos, como a técnica não dessensibilizou nossos filhos, e a permanência de Carlitos é a prova das duas coisas.

Carlitos era um irreverente, tão irreverente quanto Groucho Marx, embora sem as suas frases, mas a minha geração insistiu em sentimentalizá-lo até o desfiguramento. Desconfio que as crianças das nossas crianças rirão de nós tanto quanto de Carlitos quando, no futuro, revirem os seus filmes e as nossas elegias.


Banquete com os deuses

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Liberdades - Luis Fernando Ver!ssimo

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É livre quem pode fazer o que quiser - dentro das suas limitações de espaço, tempo, energia e recursos. só se é livre dentro de certos limites. Portanto, toda liberdade é condicional.

***

Dizer que a minha liberdade termina onde começa a liberdade do outro é muito bonito. Mas e se a liberdade foi mal distribuída e o meu vizinho tem um latifúndio de liberdade enquanto a minha é um quintal de liberdade, liberdade mesmo que tadinha? não é feio sugerir um reestudo da divisão.

***

Quem é livre às vezes não sabe. Quem não é livre sempre sabe. Ou será o contrário? A gente vê tanta gente inexplicavelmente feliz.

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Alguns são obcecados pela liberdade e prisioneiros da sua obsessão.

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Os loucos são livres e vivem presos por isso.

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Poderia se dizer que livre, livre mesmo, é quem decide de uma hora para outra que naquela noite quer jantar em Paris e pega um avião. Mas mesmo este depende de estar com o passaporte em dia e encontrar lugar na primeira classe. E nunca escapará da dura realidade de que só chegará em Paris para o almoço do dia seguinte. O planeta tem seus protocolos.

***

Fala-se em liberdade como se ela fosse um absoluto. Mas dizer "eu quero ser livre" é o mesmo que dizer "eu quero" e não dizer o quê. Existe a Liberdade De e a Liberdade Para. Não é uma questão apenas de preposições e semântica. É a questão do mundo. O liberalismo clássico iconizou a Liberdade Para. Você é livre se tem liberdade para dizer o que pensa e fazer o que quer, para ir e vir e exercer o seu individualismo até o fim, ou até o limite da liberdade do outro. A ideia de que a verdadeira liberdade é a Liberdade De é recente. Livre de verdade é quem é livre da fome, da miséria, da injustiça, da liberdade predatória dos outros. A ideia é recente porque antes era inconcebível.
Ser livre do despotismo era automaticamente ser livre para o que se quisesse, para a vida e a procura individual do paraíso. Foi preciso uma virada no pensamento humano para concluir que Liberdade Para e Liberdade De não eram necessariamente a mesma liberdade e outra virada para concluir que eram antagônicas. A última virada é a decisão de que uma liberdade precisa morrer para que a outra viva. Não concorde com ela muito rapidamente.

***

Enfim, de todos os crimes que cometem em nome da liberdade, o pior é a retórica.

***

Mas eu desconfio que a única pessoa livre, realmente livre, completamente livre, é a que não tem medo do ridículo.



trechos retirados de "Liberdades", do livro Em Algum Lugar do Paraíso, de Luis Fernando Veríssimo.

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Esse não é mais um texto pra você

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Não.


Esse seria mais um texto pra você.

Mas não, eu não vou me desperdiçar.

Não que você leia. Mas isso sai de mim e passa a ser do mundo. De ninguém.


E eu não vou me desperdiçar.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

onde estão suas pessoas?

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onde estão suas pessoas?
suas pessoas, onde estão?
pessoas
onde?
aonde?

onde estão suas pessoas?

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

pela simplicidade

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Eu não vim falar de amores e relacionamentos
eu não vim falar de mim
eu não vim falar de alguém

eu vim falar de um alguém


um alguém que deita com as costas no chão

ou em um banco qualquer
em um lugar qualquer

e olha pra cima
um alguém que olha e vê, mais uma vez, por meio daquele raro azul de céu, o quanto se é pequenino, pequenino, pequenino.


pequenino.


O quanto se está só. O quanto se é só.

Não adianta você me dizer que tem alguém. O alguém também tem um outro alguém. Tem alguém para abraçar, para dividir, para amar.

Mas, ainda assim, este alguém, assim como todos os 'alguéns', está só.

Quando ele deita em um chão, em num banco, em um colo, ele está só.
quando ele olha para cima e vê tudo o que é e tudo o que gostaria de ser, ele está só.
quando olha para cima e vê a si mesmo por dentro, ele está só.
quando olha para cima e não entende nada, ele continua só.
quando olha para cima e fecha os olhos e deixa ser levado pra longe, pro lugar onde só as boas lembranças - aquelas mais simples e mais lindas - permite que se deixe levar. ele pode não estar só, mas é esse o jeito e o sujeito que ele é. só.

Ele carrega em si todos os poetas com todos os seus sonhos do mundo - todos os sonhos do mundo.
Mas assim como todos os sonhos, ele carrega em si toda a melancolia, todos os sorrisos e todas as lágrimas, todo o amor e toda a indiferença, toda leveza e toda revolta.

leveza...

um alguém que clama pela leveza.

pela simplicidade.

simplicidade de ser.

simplicidade nas relações.

s.i.m.p.l.i.c.i.d.a.d.e para viver


para se deixar viver.



Para haver o que viver.

Porque ainda que haja marcas, vale.

ainda que haja lágrimas
ainda que haja ignorância

ainda que,

vale.

mas vale com verdade.

então, sejamos também pela verdade.

um alguém de verdade, para ser de verdade.






Para as pessoas que me mostraram que é possível existir amizade. E que hoje, me fazem enxergar que é possível amar com simplicidade. E que se tornaram únicas. Talvez, por serem únicas mesmo.

terça-feira, 27 de setembro de 2011

hoje, amanhã ou sempre.

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Fazer a única vida que se tem ter vida
ser vivida.

ser sentida.

Resignifica-la todo dia.

todo momento, a cada instante.

Porque amanhã o poeta russo que não era russo já disse: se você parar pra pensar, na verdade não há.

Essa vida sou eu que faço
O valor sou eu que dou
E, você, vem comigo que a gente descobre o que tem depois do oceano.

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

minha manga espada

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Bom, eu não sei vocês, mas a minha insônia não é nada daquela insônia produtiva, aquela insônia de noites escrevendo ou tendo grandes idéias ou até vendo filmes interessantes ou lendo livros ainda mais interessantes. Não, minha insônia é aquela insônia... insone. Se você for procurar no dicionário vai encontrar que insone é aquele que não tem sono, que não dorme. Pra mim, um insone é aquele que tem insônia de si mesmo. Que não se permite desligar, o que é engraçado já que o que ele mais queria era se desligar dele mesmo. E enquanto você tá na cama, e olha o relógio, e pensa no que tem que fazer, e pensa no que no fez, e pensa no que deixou de fazer, e pensa no que gostaria de fazer, e pensa e pensa. E, olhem só vocês, a gente chega na infância. Bom, não sei porque eu to falando a gente, se eu não faço a menor idéia do que vocês fazem quando estão sem dormir. Mas eu, eu tenho essa estranha e até dolorosa mania de reviver a minha infância sempre que tenho muito, muito tempo pra lembrar dela. Só que à noite as lembranças são diferentes, parece que também vêm acompanhada da escuridão. Porque se você me perguntasse agora o que é a infância pra mim eu diria que toda a minha infância tem gosto de manga. Gosto de manga nos sábados de manhã sentada no sofá assistindo tv. Lá em Palmares, Pernambuco. Da semana eu não vou lembrar de quase nada, a não ser a vontade de que chegasse o sábado, eu pudesse acordar um pouco mais tarde, e ainda com sono me arrastar pro sofá, ligar a TV, e esperar minha avó, que nessa hora tava fazendo o almoço na cozinha, me trazer minha manga espada.

Uma manga cortada em pedaços em um prato. Parece bobagem, mas é justamente dessa parte, a parte que não se lambuzou toda naquela manga, a parte obedientemente cortada em pedaços, é essa parte que salta à mente quando a gente quer dormir mas não consegue. Essa e outras mais doloridas e mais complicadas do que uma manga cortada. Mas essas, ao longo de alguns anos e depois de muitas noites molhando o travesseiro de medo, eu consegui deixar no lugar onde as lembranças, de fato, pertencem – no passado. É certo que quando elas trazem essa cicatrizes fica mais difícil, mas a gente também consegue.

Mas depois de um tempo chegando sempre nesse ponto onde se começa a achar que tudo está errado, é que se começa a enxergar o tamanho da bobagem disso tudo. A gente lembra que só se tem vinte e dois anos e as coisas não precisam estar certas ou erradas. Talvez nunca precisem. Pode demorar um pouquinho mas a gente sempre descobre que não vai ter nada errado. Nada errado comigo, nada errado com o outro, nada errado com o mundo, coitado. Nada errado em gostar de dia de chuva, de banho quente - depois de um banho de chuva, de séries e filmes bobos, de coca com gelo, de coca sem gás, de música no banho, de andar descalça na praia, de bicicleta na rua, de matar aula no cinema com os amigos, de ir ao cinema sozinha numa segunda-feira à tarde, de chorar no banheiro, de sorrir quando não pode, de não ligar pra gênero e pronomes, de pensar demais e ser inconseqüente, de não saber abrir latas de sardinha, dar estrelinhas e assoviar, de não saber dizer o que sente e ficar contente, de pensar muito, mas ser inconseqüente. Que há nada errado em não acreditar em muita em coisa e duvidar de todas elas, menos do silêncio. Que há nada errado em gostar do silêncio. Em escutar o silêncio. Eu gosto do silêncio.

É que no silêncio eu acredito que consiga enxergar as pessoas, que eu consigo enxergar a verdade, se existe alguma. Talvez porque seja no silêncio que eu consigo sentir,de novo, aquele gostinho doce da minha manga espada de um sábado de manhã.

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

sejamos a favor do agora.

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querer dizer e não ter o que falar

querer mostrar e não ter o que esconder

querer ter e não ter o que se quer

querer

ter



querer




se alguém me perguntasse hoje o que é a vida pra mim, eu diria, talvez, que ela é esse querer. Esse eterno querer.

Ontem ela tinha gosto de manga; Hoje ela tem gosto de desejos.

Hoje

O amanhã já se sabe que não existe. O ontem não mais interessa. Mas o hoje, o hoje também não é tão real, tão presente, tão pulsante. O hoje pode ter várias faces;

Pode ter sorrisos e pode ter lágrimas;
Pode ter paixão e pode ter indiferença;
O hoje pode acabar antes mesmo que chegue amanhã.

Antes mesmo que você note que ele já se foi.

E ele vai.

Por isso sejamos a favor não do hoje. Mas do agora.

Agora eu quero. agora eu posso. agora eu desejo. agora eu sou.

Agora eu tenho vontade de escrever. agora eu quero ir até você e te dar um beijo daqueles bregas de cinema.

agora eu quero comer açaí com leite em pó.


açaí, guaraná. E leite em pó.

Leite.

Em pó.


quinta-feira, 14 de abril de 2011

voltar a ser gente. Ou vice-versa

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voltar a ser macaco
a ser simples
não pensar
não escolher
ser
voltar a ser macaco.

não escolher?
não querer?
voltar a ser macaco?

voltar a ser gente.

gente que não se vê
gente que se esconde
gente que é pouca gente.

ser macaco ou ser gente

quem é mais animal?
quem é mais cruel?

quem diferencia?
quem agride sem instinto?
quem agride sem razão?
quem agride com a tal da Razão?
e quem mente? quem engana? e quem desmente?

macacos se arrependem?

macacos

gente

macacos dão a mão?
macacos têm amigos?
abraço eu sei que os macacos dão.

gente

macacos

aprender a ser gente
aprender com os macacos.
 

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